segunda-feira, 12 de novembro de 2007

#13 - 12/11/2007

Minha avó pagava uma moeda e cosia um elogio pelos desenhos que eu entregava. Casa com chaminé e fumaça, um Jesus na nuvem, gente como palito, experiências de olhos fechados, e tanto fazia, era sempre a idêntica remuneração. Meu pai me cedia uma hora a mais pro playground a todo gol que eu abalizava nos torneios do colégio, e, como quase nunca acontecia, ele se deixou considerar também passes decisivos ou bolas na trave. Minha mãe vinha com uma fita de videogame pelo boletim que me fluía bem da boca, ao anunciar. Às vezes, uma entonação resolvia.
É, que isso te confirme suas acusações, sou mimado doído sim, me acostumei à recompensa imediata de tudo que faço. Mudaria apenas recebendo pra mudar. E enquanto não, te exijo lábios, coxas, seios, cabelos, vestido primavera, um sorriso de quem me dispensaria se quisesse mas não quer, sua áurea pra me atingir à queima-roupa mesmo podendo me atingir de qualquer recanto do mundo, de qualquer mundo, por cada poema que rabisco no muro de sua casa.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

#12 - 31/10/2007

Hoje me deu uma agonia, dessas que faz o sinhô rodar de carro à toa por todos os bairros da cidade, um único CD no som e um cigarro pra fora da janela. Mas não sou fino como você, Elias. Pus blusa e calça pretas, dois traços de tinta na cara e desenhei num cartaz a dor do difícil, de não poder fugir do país, de morar num país em que é preciso fugir do país, de corno que eu nunca fui, de existir assim existindo, de amar não estando. Fui então com ele erguido pela rua e shopping e ponto ônibus e favela, o pessoal rindo em cada canto, corroendo. Uns três dispersos aplaudiram, um chegou a gritar “o povo precisa de luta!”, pra depois voltar a vender picolé por 30.
Fim de duas horas, notei que só um felino burguesinho, fugido de madame, que nunca viu um rato na frente que eu sei, me seguia. Pé ante pé, descaradamente. Não me queria pelo discurso, mas queria a mim, essa presença que andava. Pois sorri satisfeito, concluído. Claro, Elias, pense: é sinal que, com certeza, eu cheiro a pássaro ou a peixe, aquele que voa ou nada.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

#11 - 19/10/2007

Ô, 08! Pensa que é chegar em casa, ducha no modo “inverno”, sabonete líquido de melancia, camiseta arejada da Copa de 98 e ir assim se espichando na cadeirinha do computador? Se eu tivesse aí, te dava uns tapas. Também (pede pra sair) pelo “Odeio Almoçar no Bope”. Você vai apagar e é com borracha, fila-da-puta. Quero ver na segunda-feira você passando na tela do monitor da sede, até a comunidade sumir. E pra agora (pede pra sair), duzentas flexões, vá, vamo, vambora, duzentas no chão liso. Se não fizer, eu vou descobrir, viu, caralho? Se duvidar (pede pra desistir), descubro a sua dúvida junto e vai ser mais bagaço ainda. Quero no embalo trezentos abdominais, dez corridas pela casa, cinco lâmpadas quebradas a tiro e que você desligue esta merda. Aproveita o ensejo e pede desligamento, 08. Desiste, 08, desiste!


* * *

Tropa de Elite, o fenômeno da unanimidade.

sábado, 6 de outubro de 2007

Paixão de Varanda



Ela estava debruçada na varanda, com a mão aberta sob o queixo, observando o choque entre os edifícios e o céu numa serenidade de domingo. Linda - cabelos com mechas violetas, boca pintada de saliva, pulseira de gotas que cintilam e uma camisola do Mickey Mouse até os joelhos. Linda - mesmo quando me avistou num susto, abafou o grito e cedeu um passo para trás.
Conheci o amor da minha vida enquanto saltava do vigésimo andar.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

*interlúdio*

"tô aqui numa felicidade de dar paúra lendo esse último conto.
numa vontade doida de correr na esquina e gritar "meu benzinho" bem alto pra ver se paro com a sensação de nunca ninguém ter me odiado ao ponto de me matar, mas mesmo assim me fazendo sentir morta todas as vezes que alguém deixa de me amar.
enfim,vou dormir podendo abraçar o mundo quando chegar a madrugada.
beijos e muito obrigada por me tocar."

Clarice Bueno, um metro e meio, mas que não cabe toda em nada menor do que um céu, sobre o escrepo-conto #7. Guardei relendo, relendo, até não agüentar mais ficar só comigo. Tenho uma dificuldade em que as coisas fiquem só comigo. E só falo isso, pra ser redundante.

#9 - 24/09/2007

Foi como um ar-condicionado que parou, a amplitude de um grande som só entendida no click da ausência. Fiz um “uhh” em coro porque o silêncio brusco é pior do que o teto se o teto quisesse parar, e caísse em cima, espatifasse. Olhei para o agasalho querendo inventar algum outro sentido em me proteger, em me cuidar tanto. Ter cuidado com o quê? Não que não haja mais perigo, apenas não importa que um perigo venha enfim me buscar. Mas ele, o barulho, era algo que estava em tudo e eu não distinguia, de tão apegados nas coisas, apegados, o barulho e eu, em paralelo. Ele me envolvia pra eu me sentir sempre em movimento no meu estar. Era um barulho tão meu quanto não é mais. E agora nada resta senão abrir as janelas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

#8 - 12/09/07

Renan puxava minha saia com força de moleque, só pra me ver no susto, derrubando a colher no caldo quente. Dava risinhos de banguela e ia feito vento se esconder atrás do sofá. Eu chamava de peste, falava que ia contar todas as presepadas pro pai e pra mãe dele, que nunca mais lhe fazia leite morno com sal. Mas nem ele largava o riso e o sofá, nem eu deixava de achar graça, lá no porão, no porão de mim. Pela tarde, Renan metia a mão nos canteiros do quintal, enterrava, desenterrava boneco, brincava de botão com uns três melequentos da rua, depois corria, corria e entrava na casa pra me contar que não gosta nada quando anoitece. E tinha dia quieto, Renan no dever da escola, rodeado por papel e estojo na mesa da cozinha, bem em minha hora de lavar os pratos. Deixava o lápis cair, manhoso, e me pedia um causo. Eu atendia com um e mais outro lá da terra da terra rachada, do boi magro, do lobisomem, roda de ciranda e amor bonito de inverno. Ele nem piscava.
Renan é inocente. Renan é inocente, na minha memória.